Memórias de um ensino médio técnico e machista: “voltem pra cozinha, vão lavar roupa!”

O machismo me expulsou do mundo da tecnologia.

A frase é simples, tem sujeito, predicado e objeto bem definidos. Mas demorei 15 anos para processar, articular e, finalmente, decidir escrever o que está por trás dela.

Tinha 14 anos quando entrei no curso técnico em Eletrônica no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. O ingresso se dava por um “vestibulinho” bastante concorrido, mas, debates sobre os males da meritocracia à parte, formavam-se turmas relativamente heterogêneas, do ponto de vista socioeconômico e geográfico da cidade.

Mas não do ponto de vista de gênero. Naquele ano, último do século XX, havia sido o “boom” de mulheres no curso: éramos 7, em uma sala de 40. Até então, era normal que houvesse uma ou duas nas turmas. O curso de Mecânica continuava com essa média, ou menos (às vezes, não havia nenhuma garota inscrita). Continuar a ler

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‘The Economist’: educação pobre para os pobres

Na semana passada (18/10), a correspondente da revista britânica ‘The Economist’, Helen Joyce, respondeu a um artigo em que eu fazia críticas a uma reportagem da publicação.

Fico feliz que a internet possibilite essa troca de ideias franca, com base em argumentos e dados. Agradeço à jornalista pela disposição a entrar no debate.

Basicamente, a reportagem de Joyce “Pensions and education: Land of the setting sun” afirmava que o Brasil investe 5.6% do PIB em educação, e dizia que este valor era maior que a média investida nos países da OCDE – sugerindo que os recursos não são insuficientes, mas mal gastos. Um dos principais motivos para a ineficiência: o gasto excessivo com aposentadorias no setor.

Leonilson - Sem Titulo

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Desigualdades educacionais têm cor e endereço em São Paulo

As médias usadas em análises sobre a educação escondem a persistência de profundas desigualdades no interior de um mesmo município – sobretudo em uma metrópole complexa como São Paulo.

Dados desagregados por cor, raça, renda, gênero, idade e distribuição geográfica são necessários para revelar os desafios das políticas educacionais para a superação das desigualdades, mas ainda há enorme dificuldade em obtê-los (seja porque estão dispersos ou desorganizados, seja porque sequer existem).

Com dados levantados junto aos governos federal, estadual e municipal sobre o atendimento e a demanda educacional no território, a ONG Ação Educativa analisou a situação da cidade e sua evolução na última década (2001-2011).

Na publicação “Educação e desigualdades na cidade de São Paulo” (2013), há dados inéditos, solicitados via Lei de Acesso à Informação (LAI), ou análises de dados já existentes, mas que ainda não haviam recebido tratamento sob a ótica das desigualdades.

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A conta da educação brasileira não fecha na ‘Economist’

A educação entrou no pacote da crítica que a revista The Economist fez nesta semana à economia brasileira. A reportagem “Pensions and education: Land of the setting sun” elegeu como vilã a aposentadoria dos professores, um privilégio desmedido que estaria impedindo bons resultados no setor.

O diagnóstico da revista não chega a estar completamente equivocado, mas repete simplificações comuns no noticiário nacional, além de omitir uma informação importante sobre o tema: 1) compara o investimento brasileiro com a média de países da OCDE em termos absolutos, e não por aluno; 2) afirma que o problema é a má gestão e não a falta de recursos e 3) não informa que os salários de aposentados não poderiam ser pagos com recursos correntes da educação.

Vamos aos pontos.

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Por que começo hoje um novo blog

É inegável o espaço que o tema da educação tem ganhado na mídia tradicional, na internet e nos blogs. Economistas apontam gargalos, empresários alardeiam fórmulas de sucesso, pesquisadores – felizmente – começam a ter seus trabalhos divulgados com mais atenção e não faltam análises imediatas e imediatistas sobre resultados de avaliações e indicadores.

Se antes ocupava espaços secundários nos jornais, a educação tem aparecido cada vez mais no noticiário econômico e político. Hoje se discutem fontes de financiamento, porcentagem do PIB a ser investida, valorização dos professores (das perspectivas salarial e social). Continuar a ler

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